Conflito em Israel se retroalimenta no radicalismo, diz professora

Em entrevista ao podcast CNN Pelo Mundo, a professora de Relações Internacionais Karina Calandrin diz vislumbrar quadro de caos cada vez maior

Reprodução CNN Conflito em Israel se retroalimenta no radicalismo, diz professora Bombardeios são registrados em Gaza no dia 12 de outubro

A ascensão do radicalismo é um dos fatores que ajudam a entender o atual conflito entre Israel e Hamas, na opinião da professora de Relações Internacionais Karina Calandrin.


“Esse é um conflito que se retroalimenta no radicalismo. A extrema-direita só subiu ao poder em Israel por conta do Hamas e o Hamas se fortalece a partir das políticas de extrema-direita de [Benjamin] Netanyahu”. A especialista, que é assessora do Instituto Brasil-Israel, acredita em um quadro de caos cada vez maior.


Ao tomar posse em dezembro de 2022, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, levou ao poder a coalizão mais à extrema-direita dos 75 anos de história do país. ‘Bibi’, como é conhecido, passou a ser o primeiro-ministro mais longevo no cargo. Ele ocupou a posição anteriormente de 1996 a 1999 e de 2009 a 2021.


Apesar de vitorioso nas urnas, em poucos meses o terceiro mandato de Netanyahu passou a ser contestado por medidas consideradas radicais. A discussão de uma reforma que enfraquece o Judiciário provocou semanas de manifestações populares sem precedentes em todo o país.


Em protesto, mais de mil reservistas da Força Aérea de Israel ameaçaram parar de se voluntariar para o serviço. O projeto de lei retira da Suprema Corte o poder de anular decisões tomadas pelo governo que considere “irracionais”.


Em entrevista ao podcast CNN Pelo Mundo, em julho, a professora do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Monique Sochaczewski, afirmou que a identidade de Israel vinha sendo “esfacelada”.


“É um momento marcante porque Benjamin Netanyahu conhece a política interna israelense e está rifando aspectos tidos como bons do país em função de um projeto político bem questionável”, destacou a integrante do Summer Institute for Israel Studies da Brandeis University.


Ainda que, nas ruas, a popularidade do primeiro-ministro estivesse em queda, a sensação de que ele mantinha o país em segurança era o ponto de apoio do governo de extrema-direita. Karina Calandrin explica que, na eleição de 2022, Netanyahu teve o voto de jovens que não haviam vivenciado experiências de guerra no território israelense.


“A gente tem que lembrar que a Geração Z, que hoje são adolescentes e jovens adultos, não viu guerras. Quando houve a Guerra no Líbano, em 2006, eles eram crianças e não tiveram a dimensão do que foi o conflito com o Hezbollah. Eles viveram um período em que não houve uma intifada, apenas mísseis do Hamas. Então eles sempre entenderam que isso era graças ao Netanyahu, que assumiu o governo em 2009 e permaneceu até 2021. Então é importante entender esse contexto da visão do israelense jovem médio, que ele entende que Netanyahu consegue manter Israel seguro”, argumenta Calandrin.


A guerra iniciada no sábado (7) colocou em cheque essa capacidade. A invasão surpresa de integrantes do Hamas, grupo que é considerado terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, tem sido apontada por especialistas como uma falha no sistema de inteligência israelense.


Para Calandrin, o primeiro-ministro subestimou o Hamas e colocou a população em risco, “o ataque é um golpe para Netanyahu, porque ele demonstrou que não consegue manter Israel seguro”.


O conflito começou no sábado (7), quando o Hamas, classificado pelos Estados Unidos e pela União Europeia como grupo terrorista, disparou uma chuva de foguetes lançados da Faixa de Gaza sobre Israel. A ofensiva contou ainda com avanços de tropas por terra e pelo mar. As forças israelenses responderam com uma contraofensiva que atingiu Gaza e deixou vítimas, inclusive, em campos de refugiados. Israel declarou "cerco total" e suspendeu o abastecimento de água, energia, combustível e comida ao território palestino.

Mais lidas